quinta-feira, 10 de maio de 2012

O vestuário de trabalhadores livres no Sudeste brasileiro na primeira metade do Século XIX

Já dediquei, neste blog, três postagens especificamente ao assunto do vestuário dos escravos no Brasil. Um outro aspecto a ser considerado é o que usavam os trabalhadores livres, de baixa condição social. Aqui há que se dizer que a diversidade era considerável, em grande parte decorrendo das diferentes condições ambientais proporcionadas pela extensão do território brasileiro. Uma atividade semelhante - a pecuária, por exemplo - podia significar o uso de indumentária confeccionada em couro, isso em áreas do Nordeste, devido à aspereza da vegetação, enquanto que no Rio Grande do Sul podia impor a necessidade de roupas capazes de proteger contra o vento e o frio. O mesmo pode ser dito em relação a inúmeras outras ocupações. Era, pois, grande a variedade de hábitos no vestir-se que podia ser observada quando se percorria o Brasil já em fins do período colonial. Curiosamente, alguns desses hábitos persistem, em maior ou menor grau, até hoje, ora timidamente disfarçados, ora orgulhosamente ostentados como "trajes típicos", em festividades regionais.
Menos famoso e, talvez por isso, menos comentado, o trajar dos homens livres e pobres do Sudeste é mencionado por Saint-Hilaire, ao relatar o que via em viagem pelo Vale do Paraíba, no ano de 1822, indo de São Paulo ao Rio de Janeiro, quando observou:
"O vestuário das pessoas que encontro consiste simplesmente num grande chapéu de feltro, camisa e calças de tecido grosseiro de algodão." (¹)
A observação cuidadosa da ilustração abaixo (²), obra de Moritz Rugendas, revela que ela apresenta homens trajados à moda descrita por Saint-Hilaire. Dois aspectos interessantes: primeiro, a imagem retrata um ponto à margem do rio Paraibuna, um importante afluente do Paraíba, à altura de um pouso de tropeiros; segundo, nessa área, o trajar dos escravos não era lá muito diferente daquele disponível para esses trabalhadores livres. O que variava era, quando muito, a qualidade dos tecidos e, quase sempre, o tempo pelo qual se esperava que uma roupa deveria ser utilizada.


(1) SAINT-HILAIRE, A. Segunda Viagem a São Paulo e Quadro Histórico da Província de São Paulo. Brasília: Ed. Senado Federal, 2002, p. 115.
(2) RUGENDAS, Moritz. Malerische Reise in Brasilien. Paris: Engelmann, 1835. O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.


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