terça-feira, 19 de setembro de 2017

Bandeiras de Apresamento

Bandeiras de apresamento eram grupos de pessoas armadas (geralmente paulistas), que iam ao interior da América do Sul capturar indígenas para escravização. A princípio os ataques eram dirigidos contra aldeias cujos habitantes, sem consciência do perigo que corriam, ainda viviam segundo o estilo de vida tradicional entre populações ameríndias. Mais tarde, porém, bandos armados passaram a atacar também as missões, nas quais indígenas catequizados viviam em companhia de missionários, quase todos jesuítas
Haveria razões para essa mudança de estratégia?
Sim. Aqui estão, leitores, algumas delas:
  • As missões, reunindo catecúmenos provenientes de vários lugares, tinham, como regra, uma população consideravelmente maior que as aldeias indígenas comuns;
  • Tendo abandonado seu modo de vida tradicional, os indígenas das missões não costumavam andar armados (¹);
  • Indígenas das missões aprendiam, com os padres, técnicas agrícolas, além de vários ofícios (pedreiro, carpinteiro, alfaiate, etc.), e eram, portanto, considerados mais valiosos, quando escravizados.
O ataque maciço às missões do Guayrá começou em 1628, segundo depoimento do padre Antonio Ruiz de Montoya, célebre na defesa dos indígenas, tendo ido mesmo à Espanha protestar contra a injustiça que lhes era feita. Em suas palavras, foi assim que tudo aconteceu:
"Entrou esta gente (...) por nossas reduções, cativando, matando e despojando altares. Nós, três padres, fomos às suas cabanas e alojamentos, onde tinham já muita gente cativa, e lhes pedimos que nos dessem os que haviam aprisionado e que estavam, muitos deles, acorrentados. Gritaram como loucos frenéticos, dizendo: Prendam-nos, prendam-nos, que esses são traidores!, e juntamente dispararam alguns tiros de arcabuz, com que feriram oito ou nove índios que nos acompanhavam. Um deles caiu morto ali mesmo, de um tiro que lhe deram na coxa, e o padre Cristóbal de Mendoza saiu ferido de uma flechada. Prenderam o padre José Domenech, dizendo-nos (...) que não éramos sacerdotes, mas demônios, hereges, inimigos de Deus, e que pregávamos mentiras aos índios. Um deles apontou uma escopeta em direção ao meu peito, e eu abri a roupa para que, sem nenhuma resistência, o tiro entrasse." (²)
Não seria ainda dessa vez, no entanto, que um jesuíta iria tombar pela mão de um bandeirante. 
Montoya tem contra si o fato de que, ao passar metade de seu livro Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus contando suas aventuras e façanhas como missionário, narrou muita coisa que qualquer pessoa séria, com muito boa vontade, pode apenas reconhecer como vinda de um espírito crédulo, quando não ingênuo. Por outro lado, mesmo assumindo que houvesse algum exagero da parte do religioso, é inegável que integrantes de bandeiras de apresamento, depois das estripulias entre indígenas que viviam livres nas florestas, julgaram mais fácil e mais conveniente atacar as reduções - se não fosse assim, como explicar a existência de numerosa escravatura de origem indígena, que paulistas orgulhosos - como o genealogista Pedro Taques, por exemplo, autor da Nobiliarchia Paulistana - faziam questão de referir? Amador Bueno (o "Aclamado") tinha centenas de índios escravizados, convertidos à força:
"Teve grande tratamento e opulência por dominar debaixo de sua administração muitos centos de índios, que de gentio bárbaro do sertão se tinham convertido à nossa santa fé [sic], pela indústria, valor e força das armas, com que os conquistou Amador Bueno em seus reinos e alojamentos." (³)
Pedro Taques mencionou, ainda, que Manuel Preto chegou a ter novecentos e noventa e nove (!!!) índios escravizados; esse número, ainda que exagerado em mais de um sentido, não devia ser incomum, já que, também na Nobiliarchia Paulistana, o mesmo autor, falando de paulistas do Século XVII (⁴), afirmou que "muitos havia que possuíam debaixo de sua administração quinhentos, seiscentos e setecentos índios, que se ocupavam no trabalho da agricultura em copiosas searas de trigo, plantas de milho, feijão, legumes e nos algodoais".
Para além de tudo isso, vale ressaltar que em São Paulo ninguém escondia o fato de que paulistas invadiam missões para aprisionar índios, fazendo não poucos estragos em tais ocasiões. Pedro Taques registrou, entre vários outros, o caso do bandeirante Manuel Bicudo de Campos, que teria atacado missões não menos que vinte e quatro vezes, sem poupar nem mesmo os jesuítas. Certo dia, notando que os indígenas estavam prontos a lutar pela liberdade, sem mais delongas cortou o fio da existência ao missionário que os liderava: "(...) Fez pé atrás e tomando a sua arma de fogo fez tiro ao tal mestre de campo jesuíta (⁵), que ainda estava montado; e quando o corpo caiu do cavalo em terra, já a alma o tinha deixado." (⁶) 
Foi assim, uns através da catequese, outros à procura de ouro ou de gente para escravizar, que se explorou o território ainda desconhecido da América do Sul. Conforme reconheceu Pedro Taques, "sem o interesse do serviço dos índios não teriam feito os paulistas tão dilatadas e pasmosas jornadas pelo sertão, que ocasionaram os descobrimentos que hoje estão povoados" (⁷).

(1) Autoridades coloniais, quando precisavam de homens para lutar, podiam requisitar indígenas das missões; estes combatiam, porém, usando apenas as armas habituais entre ameríndios, e não com armas de fogo. Havia, inclusive, uma proibição quanto ao fornecimento de armas de fogo para indígenas, contra a qual lutavam os missionários, tendo em vista a necessidade de defesa contra os bandeirantes de São Paulo.
(2) MONTOYA, Antonio Ruiz de S.J. Conquista Espiritual Hecha por los Religiosos de la Compañia de Jesus
Madrid: Imprenta del Reyno, 1639
O texto citado é tradução de Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.
(3) LEME, Pedro Taques de Almeida Paes Nobiliarchia Paulistana
(4) Contemporâneos, por conseguinte, do padre Antonio Ruiz de Montoya.
(5) A fala de Pedro Taques sugere que ele próprio não tinha grande estima pelos jesuítas.
(6) LEME, Pedro Taques de Almeida Paes Op. cit.
(7) Ib.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Caldo de Carne Para Emergências

Lamento por decepcionar algum leitor neófito neste blog, mas não haverá aqui nenhuma receita culinária que seja útil para o Século XXI. O caso é outro, e deixo a explicação por conta de Lucas Rigaud, um cozinheiro famoso que esteve a serviço dos reis de Portugal. Encontramos em seu livro, publicado em 1780, cujo título é Cozinheiro Moderno ou Nova Arte da Cozinha (¹), a seguinte prescrição:
"Caldo em pastilhas, ou de conserva, para se transportar, ou por mar, ou por terra a países desertos em jornadas dilatadas; para comandantes de exércitos, governadores de praças sitiadas, cidades aflitas de peste e outros acidentes que podem sobrevir, e em que por nenhum dinheiro se pode encontrar nem galinha, nem carne." (²)
Portanto, meus leitores, nosso interesse, aqui, será apenas histórico, visto que não viajaremos por mar ou terra nos Séculos XVIII ou XIX, não comandaremos exércitos e não governaremos alguma cidade cercada por inimigos, tampouco estaremos em "cidades aflitas de peste" (assim esperamos) (³). Mas a receita, em si, é curiosa, porque nos dá uma boa ideia dos ingredientes manipulados por um chef da importância de Lucas Rigaud. Vejamos, então:
"Tome-se uma perna redonda de vaca, duas pernas de vitela (...), oito ditas de carneiro, quatro perus velhos, doze galinhas, seis galos e capões, duas dúzias de perdizes, quatro ou cinco arráteis de presunto limpo de ossos e gordura; todas estas aves limpas, vazadas e chamuscadas se deitem de molho, assim como também a carne das pernas de vaca e de vitela feita em postas grandes, sem gordura e sem ossos, e depois de tudo muito bem lavado e escaldado, deite-se em uma panela grande (⁴) ou caldeira cheia de água, e ponha-se ao lume a ferver um pouco (...)." (⁵)
Coragem, leitores! Vamos adiante. A seguir, recomendava-se que tudo fosse temperado com sal, pimenta, cravo-da-índia e gengibre, ficando a ferver por cerca de duas horas. Depois, era preciso adicionar, entre outros ingredientes, cenouras, alho-poró, cebolas, aipo e nabos, e estando tudo cozido, vinha o que poderíamos chamar de dupla filtragem e clarificação. Ia tudo novamente ao fogo para reduzir. Continuava Rigaud:
"Estando grosso (...), deite-se em cima de torteiras ou frigideiras de barro, mas que não fique de mais da grossura de um dedo, e deixe-se esfriar; depois de frio, corte-se em bocados iguais, e cada um do peso de uma onça (⁶), e ponham em tabuleiros ou em peneiras com folhas de papel por baixo, e metam-se a secar em uma estufa ou exponham-se por alguns dias ao vento norte; estando bem enxutos, embrulhem cada bocado em seu papel, e guardem-se em frascos de boca larga muito bem tapados." (⁷)
Vemos, portanto, quão trabalhoso era preparar esse "caldo de carne para emergências" em tempos anteriores à industrialização. Não imagino que alguém queira testar o processo, mas, para concluir, será interessante saber o que deveria ser feito por quem pretendesse utilizar o "produto":
"Quando suceder quererem fazer um caldo, desfaçam ou derretam em um quartilho de água fervendo uma onça ou onça e meia, se for necessário, desta composição, e segundo a pessoa que o quiser tomar o queira mais ou menos forte." (⁸)
Lembrem-se, meus leitores: Lucas Rigaud somente adicionou essa receita a seu livro porque devia ter a certeza de que poderia ser proveitosa; ele mesmo deve tê-la praticado uma e outra vez. Tudo isso pode soar como mera curiosidade, mas fornece, afinal, um parâmetro do que eram os procedimentos de cozinha em tempos agora distantes.

(1) Essa obra, publicada inicialmente em 1780, teve várias edições, de onde se pode medir o apreço com que foi acolhida.
(2) RIGAUD, Lucas Cozinheiro Moderno ou Nova Arte da Cozinha 5ª ed.
Lisboa: Typografia Lacerdina, 1826, p. 204
(3) A blogueira é vegetariana; portanto, também não tem qualquer interesse em caldo de galinha ou carne para alimentação.
(4) Sábia recomendação!
(5) RIGAUD, Lucas, Op. cit., p. 204
(6) Pouco mais ou menos de 30 g, dependendo do sistema empregado. 
(7) RIGAUD, Lucas, Op. cit., p. 205
(8) Ib.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Fila Indiana

Não se surpreendam, leitores: quando iam à guerra, indígenas andavam mesmo em fila indiana. 
Gabriel Soares, que foi senhor de engenho na Bahia e um ousado explorador do território do Brasil no Século XVI, assim explicou o modo como guerreiros nativos se punham em marcha para lutar contra uma aldeia inimiga:
"Antes que se abalem, faz o principal capitão a dianteira, que eles têm por grande honra, o qual vai mostrando o caminho e lugar onde hão de dormir cada noite. E a ordenança com que se põem a caminho é um diante do outro, porque não sabem andar de outra maneira (...)." (¹)
Seguiam, portanto, sempre em fila indiana. Já perto do local do combate, aguardavam, escondidos na floresta, até que a ocasião fosse considerada favorável, o que geralmente ocorria de madrugada. Em meio às trevas e com enorme alarido, iam ao ataque, fazendo da surpresa um uso nada desprezível. 

Índios puris caminhando em fila indiana (²)

(1) SOUSA, Gabriel Soares de Tratado Descritivo do Brasil em 1587
Rio de Janeiro: Laemmert, 1851, p. 330
(2) D'ORBIGNY, Alcide Voyage Pittoresque dans les Deux Amériques
Paris: Furne et Cie., 1841
A imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Solução de Conflitos Familiares (de Acordo Com o Código de Hamurabi)

Tenho um palpite de que Maquiavel ficaria feliz se pudesse conhecer Hamurabi - sim, leitores, eu sei que, separados por milênios, esse encontro jamais seria possível - mas a questão é que ambos adotaram em suas obras (¹) o mesmo princípio de tratar a sociedade tal qual ela era, com seus costumes, tradições, defeitos, etc., realisticamente, sem envolvimento em utopias improváveis. O pensamento de Maquiavel é amplamente conhecido; o de Hamurabi ficará mais claro com dois exemplos práticos. Vejamos, então!
A utopia familiar dita: os pais devem ter idêntico amor por todos os seus filhos. Retruca a realidade: Isso dificilmente acontece. Lá vem Hamurabi, e diz:
"Se um homem dá um presente a seu filho preferido, seja um campo, um horto ou uma casa, e confirma e doação por escrito e com seu selo, se o pai morrer, os filhos dividirão entre si a herança: aquele filho conservará o presente que recebeu e o restante dos bens será divido igualmente entre todos os irmãos."
Tinha força de lei: o queridinho do papai conservava o presente recebido e, além disso, era incluído na partilha geral. Observem, leitores, que o legislador não gastou tempo em repreender a ausência de equidade do pai (²), nem tentou introduzir alguma reforma social revolucionária na estrutura familiar; em lugar disso, limitou-se a determinar o que devia ser feito diante de um potencial conflito entre irmãos.
Mais um exemplo, desta vez relacionado aos desentendimentos de um casal:
"Se uma mulher contender com seu marido e disser: "Você não pode mais viver comigo", deverá apresentar seus motivos diante do conselho [do lugar em que vive]; se ela não for culpada e não houver cometido nenhum erro (³), mas o marido é que é negligente para com ela, então a mulher será considerada inocente, poderá receber de volta o seu dote e retornar à casa de seu pai. Mas, se ela não for inocente, se houver deixado seu marido [por outro homem] e arruinado sua casa, sendo descuidada com seu marido, ela deve ser jogada no rio."
Chocante? Talvez, mas vejam que em nenhum momento a legislação inclui algum discurso moral quanto à fidelidade no casamento. Hamurabi sabia, afinal, que casais podiam se desentender e que adultérios aconteciam. Seu Código apenas definia o que fazer quando os problemas conjugais chegavam a transtornar a paz da comunidade. Quanto à punição para a má esposa, está perfeitamente de acordo com o sistema penal do Código. Em outros casos, as prescrições incluíam cortar uma orelha, arrancar um olho e até queimar vivo um criminoso. 

(1) O Príncipe (no caso de Maquiavel) e o Código de Hamurabi, uma compilação de leis datada de 1750 a.C., aproximadamente.
(2) Esse fato parece sugerir que o fenômeno era comum na Mesopotâmia. Ninguém iria perder tempo em legislar sobre alguma coisa que jamais acontecia.
(3) O erro em questão seria, provavelmente, um adultério.

terça-feira, 5 de setembro de 2017

Uma Figueira Com a Assinatura de Dom Pedro

Velhas árvores, cuja existência supera a de algumas gerações de humanos, costumam guardar registros interessantes. Não digo isso por causa dos anéis que, não contentes em revelar a idade da árvore a que pertencem, ainda acrescentam muitas outras informações, como é o caso das condições climáticas ao longo de sua existência. É que muita gente gosta de deixar marcas em troncos de árvores - quem é que nunca viu algo assim? Basta uma faca, canivete ou outro objeto cortante, e o pobre vegetal ganha uma cicatriz que já não pode ser apagada. Imaginem, então, leitores, se o rabisco for feito por alguma celebridade. Sorte ou azar, a árvore logo fica famosa. 
Pois foi exatamente sobre uma árvore dessas que escreveu Augusto-Emílio Zaluar em suas memórias de viagem pelo Vale do Paraíba no Século XIX. Tratava-se de uma respeitável figueira, testemunha silenciosa das idas e vindas de tropeiros e suas mulas, além de muitos outros viajantes, alguns deles, anônimos, e outros, conhecidos até demais:
"Este gigante de vegetação, que nasceu de uma estaca de tropeiros, é duplamente digno de veneração. A ramagem que lhe sombreia o tronco colossal pode abrigar uma porção de cavaleiros. A base do tronco tem umas poucas de braças. É um templo de verdura levantado às portas da cidade, apontando em sua imponente majestade um fato importante nas tradições nacionais." (¹)
Zaluar parece fazer suspense... E continua:
"Vê-se aí entalhada a firma de S. M. o Imperador o Sr. D. Pedro I pelo seu próprio punho.
Quando o fundador do Império foi ao Ipiranga proclamar a independência do Brasil (²), passou aqui na tarde de 11 de julho de 1822 (...), e foi por essa ocasião que entalhou a sua inicial no tronco da figueira. A árvore hoje tem crescido a ponto de que as letras P. I., que então ficavam na altura do braço de um cavaleiro, agora têm a elevação de mais de três homens." (³)
Não tenho nenhuma intenção, leitores,  de desfazer a alegria das tradições locais, mas, se era nessa altura que se encontrava o rabisco supostamente entalhado por D. Pedro, será forçoso admitir que, para gravá-lo, o jovem príncipe precisaria ter escalado a árvore, como o fariam os meninos travessos.
Por quê? Ora, leitores, porque, explicando de um modo bem simples, nas árvores o crescimento acontece na ponta do caule (gema apical) ou de seus vários ramos (dependendo da espécie); tudo o mais permanece exatamente à mesma altura. Então, se D. Pedro houvesse entalhado seu nome, digamos, em um ponto do caule da figueira que estivesse a dois metros do chão, durante toda a vida da árvore a marca estaria exatamente à dita altura, jamais alcançando "a elevação de mais de três homens", como afirmou Zaluar. 
Além disso, o autor em questão, parecendo um tanto crédulo, não deve ter atentado para outro fato: em julho de 1822 D. Pedro nunca teria assinado P. I., quer o "I" significasse "primeiro", quer "imperador", porque nessa ocasião ele não era nem uma coisa e nem outra. Era, sim, príncipe regente do Brasil e herdeiro do trono português. Não era pouca coisa, mas a independência, que faria de D. Pedro o primeiro imperador do Brasil, constituía-se, na época da suposta assinatura, em um evento ainda no futuro.

(1) ZALUAR, Augusto-Emílio Peregrinação Pela Província de São Paulo 1860 - 1861
Rio de Janeiro/Paris: Garnier, 1862, pp. 120 e 121
(2) O episódio que se considera como proclamação da Independência ocorreu quando D. Pedro vinha de Santos para São Paulo, no final da tarde de 7 de setembro de 1822; portanto, o caminho óbvio foi outro. Zaluar talvez quisesse dizer que D. Pedro passara pela famosa árvore quando vinha do Rio de Janeiro.
(3) ZALUAR, Augusto-Emílio Op. cit., p. 121

quinta-feira, 31 de agosto de 2017

O Sistema de Correios dos Antigos Persas

Sendo donos de um império enorme, os persas (¹) precisavam ter um sistema de correios muito eficiente - se não fosse assim, como garantir que decretos e notícias chegassem com a velocidade conveniente a cada povoação, de modo que ninguém pudesse alegar desconhecimento? Quem poderia assegurar boa administração ou zelar pela segurança das fronteiras, se os governantes civis e comandantes militares não estivessem devidamente informados do que se passava, quer perto, quer longe?
Por outro lado, ter correios eficientes pode muito bem ter ajudado nas conquistas que permitiram a formação de tão vasto império. Vejam, leitores, que, em ambos os sentidos, os bons serviços de correios foram muito úteis aos persas.
De acordo com Heródoto, nada havia, na terra, que fosse "tão ágil e veloz" quanto o sistema de correios que os persas haviam inventado, no qual sempre havia cavalos e homens de prontidão para que nenhum atraso ocorresse. Nem circunstâncias climáticas adversas, ou mesmo as horas da noite, impediam que os correios circulassem: "O primeiro do correios passa ao segundo os comunicados que recebeu, e este ao terceiro, seguindo assim de um a outro, como acontece nas corridas de tochas por ocasião dos festejos de Hefaístos." (²)
Portanto, leitores, o sistema persa pressupunha um contínuo revezamento de homens e cavalos, que faziam, em turnos, um percurso determinado, à máxima velocidade de que eram capazes. Além disso, era preciso ter gente e cavalos descansados e prontos para a ação, assim que novas ordens chegassem.
Por esse sistema, as informações estavam longe de dar volta ao mundo à velocidade da luz; não obstante, os antigos persas, ressalvadas as limitações de sua época, demonstraram que, quanto aos correios, eram um verdadeiro modelo de competência.

(1) Levando em consideração tudo o que se sabe sobre o modo como os antigos persas eram governados, não é possível afirmar que o povo persa tenha sido grandemente beneficiado pelas conquistas empreendidas por seus monarcas.
(2) Heródoto Histórias, Livro VIII; o trecho citado foi traduzido por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Casacas Sob o Sol da Capital do Império

"Será útil que a civilização acabe com esse uso de andar de jaqueta diante dos contemporâneos e aparecer de casaca à posteridade."
Machado de Assis, Diário do Rio de Janeiro, 12 de junho de 1864


Qualquer um que leia obras escritas por romancistas brasileiros do Século XIX pode, sem muito esforço, descobrir que na capital do Império, gente "de respeito", como se dizia, andava vestida de modo muito impróprio - impróprio para o clima do Rio de Janeiro, mas apropriado, sim, segundo as regras de etiqueta da época. Corram os olhos, leitores, sobre os exemplos seguintes, e já verão o que era a moda masculina sob o sol carioca:

"Bravo! exclamou Filipe, entrando e despindo a casaca, que pendurou em um cabide velho."
Joaquim Manuel de Macedo, A Moreninha

"Alice (...) trocou algumas palavras em segredo com o pai, e tirando-lhe do bolso da casaca uma caixinha oval de tartaruga aproximou-se de Mário, que estava de pé apoiado no recosto da cadeira de D. Francisca."
José de Alencar, O Tronco do Ipê

"Tenho grandes salas, ricos tapetes, cadeiras de estofo, soberbos jantares, mas preciso de gente de casaca, para encher estas salas, pisar esses tapetes, sentar-se nessas cadeiras e comer estes jantares."
José de Alencar, Sonhos d'Ouro

"Às vezes bastava uma casaca, uma fita, uma cabeleira, uma bengala, para restituir a razão ao alienado; em outros casos a moléstia era mais rebelde; recorria então aos anéis de brilhantes, às distinções honoríficas, etc. Houve um doente, poeta, que resistiu a tudo."
Machado de Assis, O Alienista

"Rubião, calado, recompunha mentalmente o almoço, prato a prato, via com gosto os copos e os seus resíduos de vinho, as migalhas esparsas, o aspecto final da mesa, em vésperas de café. De quando em quando dava um olhar à casaca do criado."
Machado de Assis, Quincas Borba

Então, o que acham? O problema é que usar casaca não era simplesmente uma opção. Daniel P. Kidder, missionário metodista que esteve no Brasil entre 1837 e 1840, descreveu muito bem as exigências quanto ao vestuário de quem pretendia pôr os pés em lugares de maior cerimônia:
"Presume-se que todo indivíduo de respeito se vista bem e com propriedade. Daí o fato de se não poder entrar nas repartições públicas, no Museu ou na Biblioteca Nacional, sem ser "de casaca". O paletó-saco constitui a birra principal das regras de etiqueta, no Brasil, e, conquanto se adapte melhor ao clima que qualquer outra roupa e seja geralmente usado em casa, é rigorosamente condenado o seu uso na rua. Assim é que as pessoas respeitáveis devem usar um capote quando saem, ou, se preferirem, um casaco relativamente pesado." (¹)
Lembrando aos leitores da geração Y que não havia ventiladores elétricos e muito menos ar-condicionado no Século XIX, consideremos, agora, o que escreveu o pintor François Biard, ao tratar da mania dos trajes cerimoniosos. Notem, por favor, que Biard, de nacionalidade francesa, esteve no Rio uns vinte anos após Daniel Kidder, e foi muito menos benevolente em suas observações:
"No Brasil todo mundo se veste de preto, não somente para ir às festas, mas, também, durante o dia, muito embora o sol derreta a todos de suor." (²)
Acrescentou, ainda:
"(...) Percorri a cidade [do Rio de Janeiro] (...). Enverguei, para esse passeio, as roupas leves compradas na Belle Jardinière, mas me senti acanhado ao reparar que todos me olhavam com espanto semelhante ao que manifestávamos (³) antigamente diante de um árabe com seu albornoz ou um grego com sua saia pregueada. Por toda parte o preto predominava. Os caixeiros das lojas, manejando as vassouras, já vestiam, às sete da manhã, elegantes redingotes de casimira. O branco, neste país, onde o preto deveria ser castigo para os galés, era desconhecido." (⁴)
Biard estava errado. Havia, sim, quem usasse branco - os escravos! Vejam, portanto, leitores, que além de imitar o que era moda na Europa, era para se diferenciar dos cativos que a gente de condição livre se submetia à tortura das casacas, mesmo quando o clima e a saúde recomendavam coisa bem diferente.

Convento de Santo Antônio no Rio de Janeiro, Século XIX;
em primeiro plano, dois cavalheiros usando casaca e cartola (⁵).







(1) KIDDER, Daniel P. Reminiscências de Viagens e Permanência no Brasil
Brasília: Senado Federal, 2001, pp. 142 e 143
(2) BIARD, Auguste François Dois Anos no Brasil
Brasília: Ed. Senado Federal, 2004, p. 12
(3) Biard se refere aos franceses.
(4) BIARD, Auguste François Op. cit., p. 32
(5) ____________ O Brasil Pitoresco e Monumental
Rio de Janeiro: E. Rensburg, 1856
O original pertence à BNDigital; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog.