terça-feira, 25 de abril de 2017

O Interesse Pelo Piano e Por Outros Instrumentos Musicais no Brasil do Século XIX e Início do Século XX

Venda de instrumentos musicais em
São Paulo, 1867 (******)
Ter um piano, no Século XIX, era, para famílias que se prezavam, um sinal de distinção social, ao menos na capital do Império. Não é por acaso, leitores, que muitas cenas de romances escritos nessa época ocorrem junto a um piano. Querem ver?

"Guida sentou-se ao piano e começou a preludiar. Não tardou que o Guimarães se aproximasse, atraído pelo imã, e bordasse sobre o tema da música uma dessas falas que parecem um crochê de palavras de diversas cores." (José de Alencar, Sonhos d'Ouro)

"A única consolação que tive foi vê-la correr para o piano, e ouvi-la cantar as seguintes e outras quadrinhas musicadas no gosto nacional:
Menina solteira 
Que almeja casar,
Não caia em amar
A homem algum;
Nem seja notável
Por sua esquivança,
Não tire a esperança
De amante nenhum.  (Joaquim Manuel de Macedo, A Moreninha)

"Eugênia não compreendeu o que os dois haviam dito. Voltou os olhos para o piano, com uma expressão de saudade. Com a mão esquerda, assim mesmo de pé, extraiu vagamente três ou quatro notas das teclas suas amigas." (Machado de Assis, Helena)

Anúncio de loja de pianos em São Paulo, 1903 (*******)
Creio que já temos citações suficientes para demonstrar a relação entre literatura e pianos nos tempos do Império. Porém, antes da implantação dos "caminhos de ferro" (*), episódios românticos junto a um teclado eram facilmente imagináveis apenas no Rio de Janeiro e adjacências, ou em alguma cidade nos arredores dos portos. As ferrovias foram responsáveis pela interiorização do piano - gliss. (**), gostei da expressão. Não quero dizer que fosse impossível o transporte de um piano em carro de bois até uma povoação interiorana. Impossível, não. Mas que era incômodo, lá isso era.
Harmônicas, 1916
(********)
A marcha do café rumo ao chamado Oeste Paulista (***) foi também a marcha da expansão dos trilhos ferroviários e, por que não? Também a marcha do piano (****) rumo aos núcleos urbanos que prosperavam, graças à riqueza gerada pela cafeicultura. Logo o comércio de pianos seria um importante negócio, afinadores teriam trabalho garantido, assim como professores, cujos alunos (e, em especial, alunas), queriam brilhar em exibições nos saraus e outros encontros da elite cafeeira. Ninguém tocava outros instrumentos? Claro que sim. Pois se havia até bandas e orquestras compostas por escravos!
A ampliação da cafeicultura, com sua inevitável demanda por mão de obra, favoreceu a ocorrência de outro fenômeno, o da imigração europeia. Muita gente vinha para trabalhar, trazendo na bagagem uma rica tradição musical. Em momentos de lazer, de festas cívicas ou de devoção, as habilidades no canto ou na execução de algum instrumento eram postas em uso. Vejam, portanto, que notável amálgama estava em processo na música brasileira.
Outro anúncio de loja de pianos em São Paulo,
1907 (*********)
É verdade que a popularização de fonógrafos e gramofones nas primeiras décadas do Século XX representou algum perigo para as apresentações musicais ao vivo, fossem elas públicas ou domésticas. Houve quem julgasse preferível ouvir, vezes seguidas, alguma gravação feita por profissionais, tanto da música erudita como da popular, ao invés de tolerar as execuções nem sempre brilhantes dos músicos amadores das redondezas. A mania, porém, foi passageira. Cantar e tocar, afinal, pode ser experiência muito mais prazerosa que simplesmente ouvir gravações (*****). Pergunto apenas se nós que estamos no Século XXI, presenciando um declínio espantoso no número de aprendizes de piano no Brasil, ainda veremos renascer o amor por esse instrumento. Seria pedir demais?

(*) As primeiras ferrovias implantadas no Século XIX eram chamadas "caminhos de ferro".
(**) Para quem toca piano, não preciso explicar o que isso significa. Para os demais, recomendo encontrar um professor e começar as aulas agora mesmo...
(***) O "Oeste paulista" da cafeicultura não corresponde ao Oeste geográfico da Província e, depois, Estado de São Paulo.
(****) Uma tabela de 1866, estabelecida pelo Governo Provincial, determinava a cobrança de 112 mil réis "por tonelada métrica" para o transporte de pianos nas ferrovias paulistas.  
(*****) Em minha opinião, há lugar e hora para tocar e cantar, assim como para ouvir. Não há necessidade de eliminar alguma dessas coisas.
(******) CORREIO PAULISTANO, 5 de fevereiro de 1867.
(*******) VIDA PAULISTA, Ano I, nº 4, 3 – 4 de outubro de 1903.
(********) O ECHO, Ano XV, nº 4, outubro de 1916.
(*********) A VIDA MODERNA, Ano II, nº 29 – 30, 25 de dezembro de 1907.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

Nos Banquetes da Antiguidade

Curiosidades Sobre as Preferências de  Comida e Bebida Entre Povos Antigos


Você beberia neste "cálice" grego? (*)
1. Templos do mundo greco-romano eram locais de banquetes frequentes em honra dos deuses. Comida e bebida eram acompanhadas por música e dança, mas, como é óbvio, as estátuas de divindades, ainda que assistindo às festanças, não provavam coisa alguma. Não se pode dizer o mesmo quanto aos sacerdotes e devotos.

2. Em Roma estava disponível grande variedade de vinhos, de diversas procedências. Havia locais que vendiam vinho barato, de qualidade inferior, para a população pobre. Romanos de alta posição social eram consumidores de vinho superior, armazenado em ânforas, nas quais a data de produção e o tipo eram rigorosamente especificados.

3. Hesíodo, o poeta grego da Antiguidade, recomendou, em Os Trabalhos e os Dias: "Misture uma parte de vinho para três de água". Essa prática era comum, ao menos entre gregos e romanos, e o que variava era apenas a proporção dos dois líquidos. Em jantares importantes, escravos passavam junto às mesas com água quente e gelada, para atender às preferências dos convivas.

4. Os antigos egípcios atribuíam a invenção da cerveja ao deus Osíris. É quase desnecessário lembrar que cada povo que conhecia essa bebida também tinha um deus para responsabilizar por sua invenção. Portanto, leitores, todos já sabem, agora, por que é que, nos arredores do Nilo, havia tantas áreas nas quais a cevada era um cultivo importante.

5. Vida dura, a dos soldados romanos: entre eles, uma bebida muito usada nos acampamentos militares tinha o nome de oxycratum, e não era mais que uma reles mistura de água e vinagre.

6. De acordo com informação de Júlio César em De Bello Gallico, os antigos bretões se abstinham de comer gansos, lebres e galinhas.

7. Distribuições de trigo e outros cereais eram frequentes em Roma, como parte da chamada "política de pão e circo". Todavia, o imperador Valentiniano, que governou entre 364 e 375 d.C., foi além: mandou distribuir carne de porco entre a plebe.

8. É tradição que a carne de ganso era o alimento favorito de muitos faraós, e, no Egito, até mesmo gente que não pertencia à nobreza ou à elite sacerdotal costumava incluir essa ave na dieta, sempre que havia recursos para tanto.

9. Pavões faziam muito sucesso em Roma, mas não exclusivamente pela beleza de suas penas: quase não havia banquete em que não fosse servida carne de pavão. Ainda mais: ovos de pavão recheados eram tidos na conta de finíssima iguaria, somente encontrada nos festins dos mais ricos.

10. Afirma-se que o imperador Heliogábalo, que governou Roma entre 218 e 222 d.C., era grande apreciador de um prato preparado com cérebros de avestruz. Pode até ser exagero, mas era corrente na Antiguidade que, a cada festim imperial em que era oferecido o tal acepipe, umas seiscentas aves perdiam a cabeça, literalmente.

Cozinha romana em Pompeia (ou o que restou dela) (**)
11. Os grandes cozinheiros de Roma eram especialistas em preparar novidades para deslumbrar os convidados de um banquete. Uma das surpresas acontecia quando os escravos encarregados cortavam um animal assado e, em seu interior, havia outro, e outro, e mais outro, cada um de uma espécie diferente.

12. Não só de carne exoticamente preparada se fazia um banquete em Roma - frutas raras também eram valorizadas. Damascos frescos, por exemplo, chegaram a ser vendidos por um denário a unidade, ou seja, pelo valor que era pago por um dia de trabalho (***). Mais tarde, quando o cultivo de damasco se difundiu na Península Itálica e a produção, por consequência, aumentou, os preços caíram, já que, perdendo a característica de novidade, não havia grande demanda por seu uso nos jantares das famílias abastadas.

(*) JAENNICKE, Friedrich Geschichte der Keramik
Leipzig: J. J. Weber, 1900, p. 121
(**) ENGELMANN, Richard Pompeii
London: H. Grevel & Co., 1904, p. 82
(***) Em se tratando de trabalhadores braçais.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Anhumas

Uma Ave, Muitas Superstições


Anhuma (Anhima cornuta)
As anhumas (Anhima cornuta) impressionaram os colonizadores. Tudo culpa do espinho córneo que têm na cabeça, que, para os supersticiosos de antigamente, lembrava um chifre e, por isso mesmo, sugeria vínculos sinistros. Bobagem, é claro, mas isso é o que pensamos nós, que vivemos no Século XXI. 
Diz-se que, no passado, o rio Tietê era chamado Iguatemi, cujo significado seria "o rio das aves anhumas". Ora, leitores, isso foi há séculos. Embora eu não diga que seja impossível achar anhumas nas proximidades do Tietê, devo atestar que jamais vi qualquer delas por lá. Alguém dos leitores já viu?
O Padre Anchieta fez referência às anhumas, em carta escrita em São Vicente no ano de 1560. Descrevendo uma delas, observou: "(...) Quando grita parece o zurrar de um asno. (...) Quando acossada pelos cães, não foge, ainda que a grandeza do corpo não a embarace de voar; antes os afugenta, ferindo-os gravemente (...)." (*) Quanta coragem!
Já no Século XIX, Hércules Florence, desenhista da Expedição Langsdorff, registrou em seu diário de viagem, no dia 1º de agosto de 1826:
"De manhã matou-se junto a uma lagoa uma anhuma (**), pássaro raro e notável (...) pela excrescência córnea fina, e de três e meia polegadas de comprido, que lhe nasce na cabeça. Tem também no encontro das asas dois esporões que, como armas defensivas, podem causar ferimentos graves. A plumagem é branca e preta, sarapintada na cabeça. preta e parda ao redor dos olhos, escura no resto do corpo, com exceção da barriga, que é branca. O íris é alaranjado. (...)." (***)
Com essas características, não causa surpresa que as anhumas, entre o povo pouco instruído, fossem alvo de um sem-número de superstições. Foi o que constatou José Vieira Couto de Magalhães, ao percorrer, em 1863, parte da Província de Goiás. O caso é que, tendo abatido uma dessas aves, notou que a tripulação do barco com o qual percorria o rio Araguaia entrou em viva discussão. Motivo? Cada um queria um pedaço da anhuma, e não era para comer, já que os ossos eram o principal assunto da disputa:
"(...) Este requeria uma espécie de unicórnio que elas [as anhumas] trazem sobre a cabeça; aquele queria um esporão; um outro o osso da coxa esquerda, e, como eram muitos, cada um alegava seu direto, sem que nenhum tivesse razão." (****)
Disposto a averiguar a causa da porfia, Couto de Magalhães descobriu que a mais crassa superstição motivara o interesse por esquartejar a ave: 
"(...) Segundo eles, eram preservativos contra maus ares, maus olhos, mordedura de animais venenosos, e outras que tais coisas.
Um dos companheiros de viagem contou-me então que em Goiás, e sobretudo no norte da Província (*****) esta crença é geralmente espalhada. Extraem ossos do animal, fazem-lhes furos, e atam-nos ao pescoço das crianças, como um talismã que lhes preserva de quase todos os males." (******)
Hoje achamos graça nessas crendices, e tendemos a interpretá-las como uma espécie de folclore. Mas, há menos de duzentos anos, havia, como se vê, quem de fato acreditasse nelas. No interior do Brasil a instrução pública era quase inexistente, valendo o mesmo quanto aos cuidados médicos, de modo que a população, carente de esclarecimento e desconhecendo tanto práticas de higiene quanto as verdadeiras causas de doenças, buscava, em um conjunto de superstições, a proteção para o mundo que a amedrontava e não conseguia explicar.

(*) ANCHIETA, Pe. Joseph de, SJ Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 125
(**) Era comum que animais fossem mortos e empalhados, porque só assim é que poderiam ser expostos em museus pelo mundo afora.
(***) FLORENCE, Hércules Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829
Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 43
(****) MAGALHÃES, José Vieira Couto de Viagem ao Rio Araguaia
Goiás: Tipografia Provincial, 1864, p. 169
(*****) Atualmente, Estado de Tocantins.
(******) MAGALHÃES, José Vieira Couto de Op. cit., p. 169

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Lei de Talião

Lei de talião é o nome dado à punição de um crime de modo análogo à sua prática. Isso quer dizer que, se alguém intencionalmente provoca um ferimento em outra pessoa, deve, tanto quanto possível, receber um ferimento parecido; se comete um assassinato, deve ser condenado à morte, e assim por diante.
Muitos códigos da Antiguidade adotavam esse princípio. Era o caso da chamada Lei de Moisés: "vida em lugar de vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé..." (*) Alguns dos melhores exemplos, todavia, podem ser extraídos do Código de Hamurabi, proposto na Mesopotâmia no Século XVIII a.C., no qual encontramos alguns casos sumamente edificantes: se alguém acusasse outra pessoa de um crime passível de pena de morte, não sendo verdadeira a acusação, o acusador é que seria executado (**); a mulher que matasse ou contratasse alguém para matar o marido, a fim de ficar com outro homem, e/ou contratasse alguém para matar a mulher de outro homem (pela mesma razão), deveria ser empalada, assim como o homem com quem pretendia ficar. Para quem acha que é pouco, há mais:
"Se um homem ferir a outro, de modo que fique cego, então o ofensor deverá ter um olho arrancado."
"Se um homem quebrar um osso de outro, deverá ter um osso quebrado."
"Se um homem arrancar um dente de outro homem, de idêntica condição social (***), deverá ter um dente arrancado."
Além disso, havia, na época, a ideia (que hoje parece muito estranha, ao menos no mundo ocidental), de que o indivíduo somente fazia sentido no contexto do grupo familiar ou tribal a que pertencia (****). Um desdobramento horrendo dessa forma de pensar a sociedade é que um inocente podia acabar pagando pelo erro de outro membro de sua família. Isso era especialmente verídico em se tratando de filhos. O seguinte caso, também do Código de Hamurabi, é bastante elucidativo:
"Se um construtor edificar uma casa para alguém, mas não a fizer de forma apropriada e, em consequência, a casa cair, matando o proprietário, o construtor será morto. Se morrer o filho do proprietário, o filho do construtor será executado."
Que crime haveria cometido o filho do construtor? Nenhum, é claro, mas pagava pelo crime do pai, para que o princípio que regia a maior parte do Código não fosse quebrado. 
Lembremo-nos, no entanto, leitores, de que nem tudo no Código de Hamurabi era retribuído na medida da ofensa - havia penas muito piores...

(*) Exodus XXI, 23 - 25: "sin autem mors eius fuerit subsecuta reddet animam pro anima / oculum pro oculo dentem pro dente manum pro manu pedem pro pede / adustionem pro adustione vulnus pro vulnere livorem pro livore".
(**) A intenção, neste caso, é que era punida.
(***) No Código de Hamurabi a atribuição da pena dependia da condição social do ofensor e do ofendido.
(****) Mesmo na supostamente civilizadíssima Roma os filhos inocentes de um criminoso podiam ser executados - basta lembrar o que aconteceu à família de Sejano, que chegara a ser um dos homens mais poderosos no tempo do imperador Tibério.

terça-feira, 11 de abril de 2017

O Colégio de São Paulo e o Início da Catequese de Indígenas no Brasil

De acordo com José de Anchieta, o primeiro colégio dos jesuítas em São Paulo, aquele de 1554, era muito pequeno:
"Assim, alguns dos irmãos mandados para esta aldeia, que se chama Piratininga, chegamos a 25 de janeiro do ano do Senhor de 1554, e celebramos em paupérrima e estreitíssima casinha a primeira missa, no dia da conversão do Apóstolo São Paulo e, por isso, a ele dedicamos a nossa casa." (*)
Este relato aparece em uma carta escrita na própria Casa de São Paulo, provavelmente no final de setembro de 1554. Nesse mesmo documento, Anchieta forneceu outras informações sobre o lugar em que viviam:
"De janeiro até o presente tempo permanecemos, algumas vezes mais de vinte, em uma pobre casinha feita de barro e paus, coberta de palhas, tendo quatorze passos de comprimento e apenas dez de largura, onde estão ao mesmo tempo a escola, a enfermaria, o dormitório, o refeitório, a cozinha, a despensa; todavia, não invejamos as espaçosas habitações de que gozam em outras partes os nossos irmãos, pois N. S. Jesus Cristo se colocou em mais estreito lugar, e dignou-se nascer em pobre manjedoura, entre dois brutos animais, e morrer em altíssima cruz por nós." (**)
Por que a primitiva construção ocupada por jesuítas em São Paulo era tão pequena? Southey, em sua História do Brasil, argumentou, com acerto, que não era por falta de espaço para construir, mas errou ao supor que os missionários viviam assim como forma de proteção contra o frio. Ora, leitores, o Colégio de São Paulo foi fundado em janeiro de 1554 - portanto, em pleno verão - não havendo o menor sentido em acreditar que a mísera construção em que foi celebrada a primeira missa era para garantir que nenhum jesuíta ou indígena morresse congelado. Basta continuar a leitura da carta de Anchieta para compreender o que acontecia:
"Os índios por si mesmos edificaram para nosso uso esta casa; mandamos agora fazer outra algum tanto maior, cujos arquitetos seremos nós, com o suor do nosso rosto e o auxílio dos índios." (***)
Então, tudo se explica: o local da primeira missa, oficiada pelo padre Manuel de Paiva, foi erguido às pressas, para dar início ao trabalho de catequese na aldeiazinha de Piratininga; assim que as circunstâncias permitiram, fez-se nova construção. 
A partir de um documento datado de 1584, cuja redação também é atribuída a Anchieta, entende-se que, a princípio, a ideia era estabelecer um colégio para catecúmenos em São Vicente. Todavia, Manuel da Nóbrega julgou apropriado mudar a localização porque em Piratininga havia maior fartura de alimentos. 
Assim nasceram a cidade e o colégio de São Paulo, um por causa do outro. Como casa de jesuítas, não foi a primeira fundada em terras portuguesas na América, já que, nesse aspecto, a Cidade da Bahia (Salvador), como sede do Governo-Geral, teve a prioridade; mas, conforme o citado documento de 1584, foi em São Paulo de Piratininga que "se começou de propósito a conversão do Brasil, sendo esta a primeira igreja que se fez entre o gentio (****)." (*****) 

(*) ANCHIETA, Pe. Joseph de, SJ Cartas, Informações, Fragmentos Históricos e Sermões
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1933, p. 38
(**) Ib., p. 43
(***) Ib.
(****) O termo "gentio" era usado como sinônimo de indígena não catequizado.
(*****) ANCHIETA, Pe. Joseph de, SJ Op. cit., p. 321

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Deuses Gregos e Romanos

Entre as obras de arte da Antiguidade que sobreviveram até nossos dias, as esculturas de deuses gregos impressionam. Alguém poderá dizer: Sim, têm formas perfeitas, mas são deuses!...
É verdade, leitores, são deuses, mas não se esqueçam de que, para que escultores pudessem trabalhar, era preciso que existissem humanos, muito reais, que posassem como modelos.
Ocorre que, se na forma física as divindades gregas eram espetaculares, o mesmo não pode ser dito quanto ao caráter. A mitologia foi pródiga em relatar as ações nada meritórias que eram prática corrente entre os habitantes do Olimpo - afinal, uma comunidade bem pouco virtuosa.
Embora, ao longo dos séculos, a lista de deuses principais tenha variado um pouco (isso acontece até entre deuses), um padrão frequente era este, que pode ser visto na tabela abaixo, com seus correspondentes venerados em Roma (*):


Além das figuras mais importantes, havia ainda uma infinidade de deuses menores, além de semideuses, metade humanos, metade divinos. Já se nota que a fidelidade conjugal não era moda no Olimpo.

(*) Há quem discorde da correspondência entre deuses da Grécia e de Roma, mas, como regra geral, ela ainda é aceita. Quando Roma estava apenas começando, já havia colônias gregas expressivas na Península Itálica.

terça-feira, 4 de abril de 2017

O Cuidado dos Indígenas com as Espadas que Recebiam dos Franceses

Espadas não se encontravam entre as armas típicas dos povos indígenas do Brasil, visto que, desconhecendo a forja de metais, simplesmente não podiam fabricá-las. Além disso, desde que puseram os pés em terras da América, proibiu-se aos portugueses que trouxessem armas para os indígenas, conforme podemos ver por esta ordem existente no Livro da Viagem da Nau Bretoa, que veio ao Brasil em 1511:
"Notificareis isso mesmo a toda a dita companhia que não resgate, nem venda e nem troque com a gente da dita terra nenhumas armas de nenhuma sorte que seja, punhais, nem outras nenhumas coisas que são defesas (*) pelo santo padre e por el-rei nosso senhor, e poderão levar facas e tesouras como sempre levaram."
O escambo por meio de ferramentas era permitido, ao contrário do que ocorria com armas, e isso por uma razão bastante simples: evitar que indígenas tivessem meios de enfrentar, com igualdade, os colonizadores, na hipótese de ocorrer algum confronto (**).
Entretanto, franceses que alcançaram o Brasil em tentativas de estabelecer uma colônia no Hemisfério Sul não tinham o mesmo receio. Sabemos, por relato de Jean de Léry, que os que vieram para a França Antártica (***) traziam até mesmo armas de fogo baratas para trocar por artigos indígenas (alimentos, principalmente). Tiveram, assim, a oportunidade de observar, não sem alguma surpresa, que os tupinambás eram hábeis em aprender o uso dessas armas, ainda que, vez ou outra, algum acidente acabasse por acontecer.
A França Antártica teve vida curta. Já no Século XVII, franceses fizeram nova tentativa, buscando estabelecer uma fortaleza no Maranhão, à qual deram o nome de forte de São Luís. Para doutrinar indígenas, vieram alguns capuchinhos, cujo líder, padre Yves d'Évreux, escreveu um livro no qual tratou de relatar suas aventuras nos dois anos que permaneceu no Brasil (1613 - 1614). 
Julgando, ao que parece, que os indígenas podiam ser úteis em reforçar a defesa do forte contra um ataque de portugueses que, cedo ou tarde, acabaria por acontecer, franceses forneciam espadas, principalmente aos chefes, e tratavam de ensinar como deviam ser usadas. Observou o padre d'Évreux:
"Causa gosto ver o zelo e o cuidado com que trazem as espadas que lhes dão os franceses, sempre a seu lado, sem nunca tirá-las senão quando se deitam, e quando trabalham em suas roças, penduram-nas junto a si em algum ramo de árvore, fazendo-me lembrar da história de Neemias (****), na reparação dos muros de Jerusalém, quando os seus habitantes traziam numa das mãos as armas e na outra os instrumentos de trabalho." (*****)
O desvelo dos indígenas ia além, no modo como as armas eram mantidas em perfeitas condições de uso:
"Gostam muito de trazer as espadas tão limpas como cristal, e para isso as esfregam com areia fina e azeite de mamona, amolam-nas repetidas vezes para estarem sempre cortantes, aguçam as pontas, quando estão gastas pela ferrugem muito comum na zona tórrida." (******)
À semelhança do que ocorreu com a França Antártica, a colônia francesa no Maranhão redundou em fracasso, e, portanto, os portugueses retomaram o controle da área. Não fora pelos escritos do padre Ives d'Évreux, talvez nunca viéssemos a saber do amor que os indígenas do norte do Brasil manifestavam por suas espadas.

(*) Isto é, proibidas.
(**) Como se sabe, combates entre indígenas e colonizadores não demoraram a ocorrer.
(***) Em terras do atual Estado do Rio de Janeiro.
(****) O texto a que Yves d'Évreux faz referência é este:
"aedificantium in muro et portantium onera et inponentium 
uma manu sua faciebat opus 
et altera tenebat gladium / 
aedificantium enim unusquisque gladio erat accinctus renes 
et aedificabant et clangebant bucina iuxta me" (II Esdrae 4, 17 - 18)
(*****) D'ÉVREUX, Yves Viagem ao Norte do Brasil Feita nos Anos de 1613 a 1614
Maranhão: Typ. do Frias, 1874, pp. 37 e 38
(******) Ib., p. 38