quinta-feira, 11 de março de 2010

Voltaremos a Escrever em Papiros?

Pedra de Roseta (*), decisiva para a
decifração inicial dos hieróglifos
egípcios (**)
A humanidade já escreveu em papiros. Já escreveu em tabletes de argila. Já escreveu em pergaminhos. Já escreveu – e ainda escreve – em papel. Papiro, tablete de argila, pergaminho ou papel foram apenas o meio para a preservação do conhecimento, para a troca de ideias e informações, para a fofoca (por que não?). O meio mudou com o passar do tempo, mas o conhecimento, as ideias, as informações e a fofoca continuam a existir. A escrita, e não o meio, é que transcendeu as eras, seja no grau superlativo da arte literária, seja como expressão da individualidade, seja apenas como ferramenta quotidiana que permite armazenar informações para além dos limites de nossa falível memória.
Você, leitor, deve estar se perguntando aonde quero chegar. Pois bem, já vou dizer. É que tenho visto e até participado de discussões sobre o futuro do livro e do jornal impressos em nossa época, na qual a comunicação digital torna-se majoritária. Para mim, supor que livros e jornais desaparecerão e lamentar tal fato não passa de saudosismo antecipado, masoquismo de quem parece ter prazer em sentir-se velho antes da hora. E vai-se daí construindo uma torrente de lamentações sobre o que se perderá se não tivermos mais jornais para lermos tranquilamente ao sabor de um chocolate quente e se frios leitores digitais substituírem o charme dos livros em papel macio de primeira qualidade. A quem assim lamenta, devo dizer que o passado da humanidade nos ensina  que tudo será mais fácil se aceitarmos a ideia da mudança. Ninguém mais escreve habitualmente em papiro, argila ou pergaminho, e é bastante provável, para júbilo das árvores em geral, que o papel entre, em algum tempo, para a lista dos suportes arcaicos de escrita. Permanecerão, no entanto, o conhecimento, as ideias, as informações e a fofoca, porque somos humanos e essas coisas são, intrinsecamente, parte de nós.
Se você leitor, quer mais motivo para ruminar este assunto, deve ler o ensaio de Machado de Assis, O Jornal e o Livro, de 1859... 
Caracteres hieroglíficos (***)
Depois de ler Machado, creio que concordará em dizer como Salomão, o sábio rei dos hebreus, que não há nada de novo debaixo do sol. Ao termo de tudo percebemos que discussões antigas como esta ainda persistem porque há quem ache um charme ter cabeça dura, julgando que o que temos é suficientemente bom e não precisa mudar. Só posso concluir que, na realidade, não são as coisas em processo de transformação que nos inquietam, é a necessidade de mudança em nós mesmos que nos machuca e nos tortura, ainda quando admitimos ser essa uma experiência absolutamente necessária, incluída entre as poucas que nos permitem crescer de verdade, e sem a qual morremos interiormente, embora a vida pareça seguir como sempre - o que talvez explique o fato de haver tantos mortos-vivos circulando pelas ruas, que riem, choram, trabalham, procriam,  mas quase sem nenhuma consciência de quem são, constando apenas nas estatísticas dos que realizam seus sonhos de poder exercendo controle sobre eles.
Quanto a nós, leitor, tratemos de vivenciar com discernimento e paixão esse momento talvez único, em que somos envolvidos pelas ondas da informação digital, tendo acesso ao conhecimento como nenhuma outra geração que nos precedeu.

(*) CHESNEY, J. The Land of the Pyramids
London: Cassel & C., Limited, c. 1884, p. 54
(**) A Pedra de Roseta apresenta o mesmo texto em três formas distintas de escrita: hieroglífica, demótica e grega.
(***) RAWLINSON, George Ancient Egypt
London: T. Fisher Unwin Ltd., 1887, p. 55


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