quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Dormir em Redes - Parte 1

Por que motivo alguém deixaria sua cidade natal e, em meados do século XVI, sairia a percorrer o mundo em navios que mais pareciam cascas de ovos sobre as águas revoltas do Atlântico? Sim, portugueses e espanhóis, envolvidos no processo de descobrimento e colonização a América, tinham seus motivos para tais viagens, mas um alemão que nem era marinheiro? Esse foi o caso de Hans Staden. Fez duas viagens à América do Sul, a primeira em uma frota portuguesa, a segunda a serviço da Espanha. Na segunda viagem teve a infelicidade de naufragar na costa do Brasil. Como era artilheiro, acabou contratado para trabalhar na defesa da povoação portuguesa na área de São Vicente. Entretanto, acabou sendo feito prisioneiro de indígenas, aliás indígenas que tinham, segundo o próprio Hans Staden, o hábito da antropofagia e, muito satisfeitos em prendê-lo, levaram-no para sua aldeia, na região de Ubatuba, com a finalidade de... devorá-lo. Curiosamente, acabou conseguindo safar-se e retornar à Europa, onde, no melhor estilo dos aventureiros de nosso tempo, escreveu um livro, Zwei Reisen nach Brasilien (*), no qual contou não apenas as peripécias pelas quais passou, mas também algo sobre as particularidades do estilo de vida dos ameríndios com que tivera contato. A obra é tão boa que chega a ser surpreendente que não haja, quanto ao que eu saiba, nenhum longa-metragem expressivo com base nela.
Um dos hábitos indígenas assinalados pelo nosso viajante foi o costume de dormir em redes. Conta-nos Hans Staden que, uma vez prisioneiro dos tupinambás, foi levado à sua aldeia, sendo-lhe destinada uma rede (a que os nativos chamavam inni), na qual deveria dormir. Explica também que a rede era armada entre dois paus ou, quando em viagem, entre duas árvores. Essas redes por ele descritas eram tecidas com fios de algodão e, durante a noite, costumavam os índios manter uma pequena fogueira perto delas, tanto para aquecimento como para afastar insetos e animais peçonhentos.

Rede indígena de acordo com Hans Staden (***)
Hans Staden em uma rede, prisioneiro dos tupinambás (***)

Entretanto, devia haver indígenas que trançavam redes de outros materiais, porque o desenhista francês Hércules Florence relatou que, em 1826, durante a Expedição Langsdorff, viu uma feita de cipó:
"No lugar onde paramos, havia uns gravetos queimados entre cinzas, assim como uma rede de cipó suspensa à alta ramada de uma árvore, sem dúvida para pôr quem lá dormira ao abrigo das onças. Creio que fora algum índio, o qual fizera sua cama tão alta por se achar sozinho, pois tenho como certo que não deve haver o menor receio daquelas feras, quando se viaja em grupo." (**)
Estava a Expedição, segundo o mesmo autor, próximo ao ponto em que o Tietê lança suas águas no rio Paraná.

  
(*) Duas Viagens ao Brasil. Editado em Marburg em 1557.
(**) FLORENCE, Hércules Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829
Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 45
(***) De acordo com a edição de Marburg. As imagens foram levemente editadas para melhorar a visualização.


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2 comentários:

  1. Apenas uma colocação, existe sim , um filme que conta a historia de Hans Staden, de mesmo nome,de 1999.
    Sinopse:
    Hans Staden (Carlos Evelyn) um imigrante alemão que naufragou no litoral de Santa Catarina. Dois anos depois, chegou a São Vicente, concentração da colônia portuguesa no Brasil, onde trabalhou por mais dois anos, visando juntar dinheiro para retornar Europa. Neste tempo em que viveu em São Vicente, Staden passou a ter um escravo da tribo Carijó, que o ajudava. Preocupado com seu sumiço repentino após ter ido pescar, Staden parte em sua procura, sendo encontrado por sete índiso Tupinambás, inimigos dos portugueses, que o prendem no intuito de matá-lo e devorá-lo. a partir de então que passa a ter que arranjar meios para convencer os índios a não devorá-lo e permanecer vivo.

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  2. Olá, Leonardo. Obrigada pela excelente colaboração. Pode ser muito útil para os leitores interessados no assunto.

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