terça-feira, 13 de março de 2012

As Senzalas, Moradias dos Escravos no Brasil


"Habitação de Negros", segundo Rugendas (³)
As senzalas foram, durante séculos, as habitações dos escravos no Brasil. Variavam na forma e nas dimensões, de acordo com o número de cativos que vivia em uma dada propriedade e que, portanto, eram devidamente trancafiados à noite, para que se evitassem as fugas em massa.
Em alguns casos eram construídas ao redor de um pátio, como nessa descrição que aparece em Til, de José de Alencar:
"É aí o quartel ou quadrado da fazenda, nome que tem um grande pátio cercado de senzalas, às vezes com alpendrada corrida em volta, e um ou dois portões que o fecham como praça d'armas."
Outras vezes, como se vê nesta descrição de Hércules Florence da fazenda Camapuã, a senzala podia ser parte de uma área maior, mas necessariamente bem fechada:
"Há duas casas de sobrado, uma onde mora o comandante, que na ocasião era um alferes de milícias (guarda nacional); outra fronteira, separada por vasto pátio, que tem um engenho de moer cana tocado por bois. O pátio é fechado pela senzala dos escravos, toda ela baixa e coberta de sapé. À noite, são eles metidos debaixo de chave.
A gente forra mora do outro lado do rio Camapuã." (¹)
Havia ainda as senzalas construídas como longas casas, não muito largas, com quase nenhuma iluminação natural ou ventilação. Foi um tipo muito comum em algumas áreas de São Paulo. Por quê? Uma hipótese é que, tendo, durante muito tempo, sido a escravidão de indígenas, e não de africanos, a que predominou em terras paulistas, as moradias dos escravos eram construídas de uma forma algo semelhante às habitações coletivas que muitos nativos tinham em suas aldeias, ainda que os materiais empregados na edificação fossem, eventualmente, outros. Aliás, cabe ainda acrescentar que, em São Paulo, nos primórdios do chamado "sistema de parceria", houve casos de que moradias de escravos fossem, por assim dizer, "adaptadas" para receber famílias de imigrantes, o que acarretou alguns incidentes marcantes de rebelião entre esses trabalhadores livres.
No entanto, independente da forma e do tamanho, quase todas as senzalas, Brasil afora, tinham um elemento em comum: eram sempre localizadas bem próximo à residência dos senhores. Isso pode parecer um absurdo, pois se sabe muito bem o quanto os senhores temiam uma revolta e consequente vingança de seus escravos, mas corria-se o risco, já que os escravos, como dizia Antonil, "são as mãos e os pés do senhor do engenho, porque sem eles no Brasil não é possível fazer, conservar e aumentar fazenda, nem ter engenho corrente"(²), podendo o mesmo ser dito em relação a todas as demais atividades econômicas praticadas durante a fase colonial e boa parte do Império. Ou seja, os senhores sabiam perfeitamente que grande parte de sua riqueza vinha da exploração da mão de obra escrava, o que os levava a preferir o risco inerente a uma revolta da escravatura (muito mais numerosa do que os livres), à possibilidade de perderem seu "investimento", sem o qual, a rigor, não eram quase nada.

(1) FLORENCE, Hércules Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas de 1825 a 1829
Brasília: Ed. Senado Federal, 2007, p. 66
(2) ANTONIL, André João (Giovanni Antonio Andreoni) Cultura e Opulência do Brasil por Suas Drogas e Minas
Lisboa: Oficina Real Deslandesiana, 1711, p. 22
(3) RUGENDAS, Moritz Malerische Reise in Brasilien
Paris: Engelmann, 1835
O original pertence à Biblioteca Nacional; a imagem foi editada para facilitar a visualização neste blog. 


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