quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Terremotos no Império Romano

Parte expressiva do território até onde se estendeu o Império Romano estava em áreas sujeitas a tremores de terra mais ou menos frequentes. Não é surpresa, portanto, que, nos registros feitos por autores da Antiguidade, os terremotos fossem seguidamente mencionados.
Tácito (¹), por exemplo, citou vários incidentes relativos a tremores: um que atingiu Pompeia alguns anos antes que a cidade fosse soterrada pelo Vesúvio (²), uma sucessão de tremores sentidos em Roma no ano 52 d.C., provocando o desabamento de casas (³), e um grande terremoto que, nos dias de Tibério, arruinou doze cidades da Ásia Menor (⁴), entre outros.  
Plínio, o Velho (⁵), em extensa dissertação no Livro II de sua Naturalis Historia, afirmou que "os babilônios achavam que terremotos e rachaduras, como tudo o mais, eram consequência da ação das estrelas." (⁶) Sensatamente cético, Plínio procurava causas naturais para os tremores de terra, ainda que nada soubesse sobre a existência de placas tectônicas. Já entendia, porém, que alguns terremotos são seguidos por tsunamis (⁷): "Tremores de terra são seguidos por inundações que vêm do mar" (⁸), escreveu.
Mais enfático que Tácito em relação ao mesmo incidente, Plínio entendia que o terremoto ocorrido nos dias de Tibério fora o maior de que, até então, se tivera notícia:
"O maior tremor de terra de que os mortais têm memória aconteceu durante o principado de Tibério César, quando doze cidades da Ásia vieram ao chão em uma noite (...)." (⁹)
É claro que, para os supersticiosos romanos, tremores de terra, assim como outros fenômenos naturais, eram vistos como prodígios, manifestações da ira dos deuses que deviam ser conjuradas com sacrifícios. Tertuliano (¹º) referiu, na Apologia, que tremores estavam entre os pretextos que conduziam à perseguição de cristãos no Império:
"Se o Tibre alcança os muros da cidade, ou se o Nilo não transborda o suficiente para as plantações, se o céu, sem nuvens, não traz chuva, se há tremor de terra ou se ocorre escassez de trigo, ou se grassa a peste, o povo não tarda a gritar para que joguem os cristãos ao leão."
Voltemos a Tácito. Quando um terremoto de maiores proporções ocorria dentro dos limites do Império Romano, era usual que recursos públicos fossem oferecidos - e aceitos - para reparar os danos materiais. Bem, assim era na maioria dos casos. Prodígio, mesmo (¹¹), a ponto de merecer registro no Livro XIV dos Annales, ocorreu no ano 814 da fundação de Roma (¹²): "Naquele ano, a ilustre cidade de Laodiceia, na Ásia, que havia sido arrasada por um terremoto, foi reconstruída com seus próprios recursos, sem receber qualquer auxílio de nossa parte [de Roma]." (¹³) Pelo visto, esse fato foi novidade até para Tácito, tão acostumado às manhas de seus contemporâneos.

(1) 47 - 120 d.C.
(2) TÁCITO, Annales, Livro XV.
(3) Ib., Livro XII.
(4) Ib., Livro II
(5) 23 - 79 d.C.
(6) PLÍNIO, Naturalis Historia, Livro II
(7) Ainda que a palavra "tsunami" lhe fosse, como é óbvio, desconhecida.
(8) PLÍNIO, Op. cit., Livro II
(9) Ib. 
(10) 160 - 220 d.C.
(11) Até para os critérios do Século XXI.
(12) 61 d.C.
(13) Todas as citações das obras de Plínio, Tácito e Tertuliano que aparecem nesta postagem foram traduzidas por Marta Iansen, para uso exclusivamente no blog História & Outras Histórias.

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