quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

No Natal do ano 800

Era Natal no ano 800: de acordo com um registro em Annales regni Francorum (¹), nessa data teve lugar a coroação de Carlos Magno (²) pelo papa Leão III, acontecimento visto como marco de fundação do Sacro Império Romano. Em palavras da crônica, "no exato dia do santíssimo nascimento de Nosso Senhor, estando o rei na missa, antes que se levantasse para a Confissão do Apóstolo São Pedro, o papa Leão colocou a coroa sobre sua cabeça, sendo então aclamado pelo povo romano "Carlos Augusto [...], grande e pacífico imperador dos romanos, vida e vitória!""
Esse fato, longe de ser meramente cerimonial, tinha implicações políticas nada desprezíveis:
  • Por ter ocorrido em Roma (³), a coroação reforçava a expectativa quanto a um renascimento do Império Romano, agora reconhecendo a autoridade suprema da Igreja, daí o nome de "Sacro Império Romano", atribuído ao território sob domínio de Carlos Magno;
  • A questão de que, em última análise, o poder real estava submetido à autoridade da Igreja ficava sutilmente implícita, por ser do papa Leão III a iniciativa de pôr a coroa na cabeça do rei (⁴).
Entretanto, o sonho de uma Europa unificada sob a dinastia carolíngia teve vida curta. As lutas sucessórias entre os netos de Carlos (filhos de Luís, o Piedoso, coroado como herdeiro de seu pai em 814), se incumbiram de fragmentar o efêmero império. A Igreja, porém, longe de sair enfraquecida, veio a ser, ao longo da Idade Média, a verdadeira autoridade supranacional, aceita, ainda que com eventuais contestações, nos múltiplos territórios em que se fragmentou politicamente o Continente Europeu.

(1) datado do ano seguinte, 801.
(2) Carlos já era rei dos francos; a coroação em Roma fez dele o imperador do Sacro Império Romano.
(3) Indo a Roma, Carlos fizera um "favorzinho" ao papa, ao acalmar agitações locais; a recompensa, como se vê, foi generosa.
(4) Alguns historiadores entendem que a coroação, que devia parecer uma surpresa, fora previamente combinada.


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6 comentários:

  1. Até que, em 1179, outro Papa reconheceu a autoridade de outro rex, de seu nome Afonso Henriques, dando origem a um pequeno reino que teve influência em quase todos os continentes do mundo...
    Então é Natal outra vez. Boas Festas!
    Um abraço
    Ruthia

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    1. Portanto, um feliz Natal ao reino de Dom Afonso Henriques, e especialmente a você e ao Pequeno Explorador. Estou à espera de mais posts cheios de belas aventuras em O Berço do Mundo.

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  2. Curiosamente, ou talvez não, ao fim de 1200 anos a Europa continua em busca dum rumo para a pacificação, ou seja, duma completa união. Isto não lhe diz nada acerca da natureza humana, Marta? ;)

    Tenha um belo final de semana.

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    1. Sim, há semelhança na situação, ainda que o cenário político seja diferente. E é aí que você tem toda razão: os velhos revanchismos e nacionalismos continuam bem vivos, ainda que cobertos por um verniz de modernidade. Como esperar mudanças?

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  3. Olá Marta, Mulher guerreira do bom trabalho em relação a História. Boa postagem.
    Marta, no fundo do baú da religiosidade judaica, há escondido a crença de que nossa galáxia vai ser destruída e refeita novamente. Na História da humanidade, existe povos que tiveram uma crença parecida? Sabe me dizer? Desde já, obrigado.

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    1. Olá, Li Onoveee,
      Em várias culturas, religiões e civilizações do passado há crenças relacionadas a alguma "reconstrução" da Terra e mesmo do Universo. Os antigos egípcios, por exemplo, viam na natureza um ciclo anual de nascimento, desenvolvimento, morte e ressurreição, que estava associado à sequência de estações do ano, mas ideia semelhante pode ser vista em vários outros povos.
      A crença em um ciclo perpétuo de fim e recomeço do Universo pode ser encontrada no Hinduísmo; esse pensamento, por comparação, tem fascinado alguns cosmólogos ocidentais que, mediante observação e cálculo, acreditam ser possível que o Universo, em expansão desde o Big Bang, passe por uma fase de contração, para nova explosão, indefinidamente.
      Voltando à História, os maias e astecas, ao que parece, também tinham alguma crença relacionada ao que poderia ser chamado de "fim do mundo", a ser seguido por uma nova fase, que não significaria a desaparição da Terra. E, dentro do Cristianismo, há a crença de que o atual estado de coisas, conforme o conhecemos, chegará a um fim, com o retorno de Jesus Cristo à Terra, que será completamente renovada, após o Juízo Final. Embora haja variantes na interpretação desta crença, a maioria dos cristãos a aceita, em algum nível.
      Estes são apenas alguns exemplos, para atender à sua curiosidade rsrsrsrrsss. A história das religiões está repleta deles, e são um campo fértil para estudos de comparação entre diversas culturas.

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